Tá, eu cansei mesmo de 2008. Mas a verdade é que, por algum motivo desconhecido, o medo é tamanho que eu queria que o hoje durasse bem mais que 24h.

O cérebro humano é uma máquina que se relaciona com o meio e interpreta-o. Dependendo do cérebro, do meio ou do humano esse processo pode ser bizarro. Mas, na verdade, não é bem disso que eu queria falar. Eu queria contar uma história. Uma história que fizesse o cérebro de Cecília funcionar como uma máquina que se relaciona com o meio e interpreta-o de forma bizarra. A história é a história de Geni! Mas, na verdade, não era bem essa a história que eu queria contar. Então, vou falar de Ícaro:
O corpo doía. A cabeça pesava. Os olhos estavam fundos, como quem parece não saber o que é sonhar há algumas noites. A boca abria em intervalos de tempo determinados por um modelo de progressão aritmética de razão -0,7 (segundos). Até que abriu e não fechou mais.
A história de Ícaro acaba assim. Meio que sem acabar. É que, na verdade, não era bem isso que eu queria dizer à Cecília com o intuito de fazer o cérebro dela relacionar-se com o meio e interpretá-lo, como uma máquina bizarra. O que, de fato, eu queria gritar à Cecília – sem asas e com a boca bem aberta, como Ícaro - era:
“Não tem essa de irreverência! Irreverência faz a gente perder a credibilidade!” (Credibilidade?! Kakakaka)
"Não existe gente mais idiota que o pessoalzinho de jornalismo!" (AEEEE! Um sábio solto!)
“Um defeito? A pressa!” (Pfff! Quem tem pressa come... mais que os outros! E que morra a falsa-modéstia!)
“Você tem até amanhã à tarde. Se não achar o bagulho eu vou cortar seu pescoço!” (Uma virtude? A pressa!)
“Ouça-me bem amor. Preste atenção o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho. Vai reduzir as ilusões a pó. Preste atenção, querida. Em cada amor tu herdarás só o cinismo. Quando notares estas à beira do abismo. Abismo que cavastes com teus pés”. (Cartola solto que me lembrou os Versos Íntimos (e soltos) de Augusto dos Anjos, poeta também solto)
O galego ranzinza diria: “Agora eu sei que a vida não é um jogo de palavras cruzadas onde tudo se encaixa”. E eu digo:
- O que será que ela quis dizer? Cinco letras começando com letra A.
Ele parece querer lutar, mas ainda não entende ao certo contra o que.
Ele parece rogar por força, mas não sabe de onde tirá-la e nem como usá-la.
Ele parece implorar por um sorriso no espelho impregnado de vermes, vírus e putrefação.
A barriga murcha e os ossos saltados pedem pelo amor de deus - que, aliás, ele nem sabe se existe – que algum alimento – para o corpo ou para a alma - seja limpo o suficiente pra ser digno da figura doce e franzina.
As mãos, sempre atentas, insistem em ficar levantadas para evitar o toque que vale uma morte.
A olheira faz o olho pesar.
E o olho pesa...
... e a alma pena.
Alma de menino ingênuo. Menino doce. Alma pura e linda. Pura, linda, doce e assustada. Já não sei mais se o mundo é limpo e ele se confundiu, ou se nós é que somos porcos e nos acostumamos com a fétida condição de sermos humanos. O desespero e aprisionamento em si mesmo é o preço que essa pura alma paga por ser tão sensível.
O olho pesa...
... a alma pena...Filha da puta! Ela não podia ter feito isso! Não antes de 2058, caralho! A Dercy era as tetas da loira e da mulata chocando e seduzindo conservadores pela Sapucaí! Era o quebrar das pernas dos falsos moralistas. Não podia ter morrido agora! Tão cedo!
Penso que a Dercy foi uma punk anacrônica (me ocorreu agora que talvez ela tenha inspirado o visual do Supla. Digressão!!!). Ela chokou! E chocou de forma tão natural que eu, às vezes, sentia inveja do fato de ninguém nunca ter lavado a boca dela com sabão Ipê (dúvida por que?). E, certamente, precisaríamos de Dercy e sua boca suja por mais muito tempo por aqui para tentar pôr fim à prática da lavação de línguas e assistirmos ao fracasso da indústria dos saponáceos.
Pouco me importa que os palavrões tenham surgido na vida da bonitona como ferramenta para o ganha-pão (aliás, dinheiro sempre foi uma coisa que ela não escondeu de ninguém que gostava muito). Isso não tira o mérito de Dercy. Talvez só acrescente mais, aliás. Porque ganhar a vida e um país inteiro mandando todo mundo ir se foder, tomar no cu e pra puta que o pariu beira a genialidade.
Lembro dela em “Deus nos acuda”. A lembrança é vaga. Acho que ela era um anjo. (¿ou uma deusa?) Não sei! Mas a ironia não fica por aí. Ela nasceu, em 1907 (há controvérsias), em uma cidade chamada Santa Maria Madalena. Não entendo muito de hagiologia (Não sabe o que é, joga no Google, folgado! Tive muito trabalho pra descobrir essa palavra pra ir entregando assim de mão beijada!rs), mas Maria Madalena não é a puta que ganhou o perdão e sabe-se lá mais o que de Jesus?
Por falar no Rei dos Judeus, fazendo um briefing de mídia sobre a impudica Dercy, vi uma recente participação dela no programa do Sílvio Santos “Nada Além da Verdade”. Quase uma hora sem acréscimo cultural algum. Fantástico!!! Quase uma hora de gargalhadas. Só Dercy teria coragem de dizer em alto e estridente som na cara do rei dos judeus contemporâneo que “porra” não é palavrão. “Você é feito de porra! Eu sou feita de porra! Porra não é palavrão!”, disse voltando-se a Senor Abravanel.
Mas o diálogo genial veio quando a filósofa Dolores Costa Gonçalves falou que não ama ninguém (Também no meu briefing de mídia, vi uma entrevista dela com Marília Gabriela, quando ainda tinha 70 e poucos anos (A Dercy, não a Gabi). No bate-papo, Dercy faz uma intrigante colocação sobre uma possível receita para se manter conservada. Na época, um tanto mais comedida, disse serenamente à Gabi: “Eu não amo, não odeio, não tenho saudade e nem ódio”. Interessante. Muito interessante.).
Mas voltando ao “Nada Além da Verdade”, quando Dercy falou ao rei dos judeus que nunca havia amado ninguém, ele tentou argumentar. E veio a pérola:
- Dercy, você já mudou de vida e deixou tudo para trás por um grande amor?
- Não! Eu nunca amei!
- Mas, Dercy, tem um poeta famoso que diz que "quem passou pela vida e não amou, não passou pela vida".
- ESSE POETA AÍ É UM VIADO! (no tom estridente de costume) Ele não sabe o que passa em mim! Eu sou eu, ele é ele!
Kakakakakaka Esse poeta aí é um viado!!!!
Acho que ela durou tanto porque sabiam que não existiria outra igual. E creio que não existirá mesmo. Talvez a Gra, minha companheira de república, chegue perto disso, mas ainda não estou certa.
Graaaande Dercy! Acho que, quando ela nasceu, não chorou! Gritou: “Puuulta que pariu! Que buceta apertada!”
E Ary Fontoura disse sabiamente ontem, 19 de julho:
- Vai-se Dercy, ficam os palavrões mais carinhosos!
(17 de março de 1987)
- Virge Santa! Que tamanho de nenê! Foi parto normal isso??
- Sim! Meu bebê de quatro quilos e setecentos gramas! (sorriso)
(carnaval de 1988)
- Minha Nossa Senhora do sapato furado! O bebê tá chorando!
- Filha, não pode chorar! Vem cá com a mamãe, vem! (sorrindo)
(carnaval de 1990)
- Minha Santa Eulália da epiderme comprometida! Aquela criança ta mijando na fantasia!
- Mamãe! Eu não chori, só miji!
- Rárárárá!
(carnaval de 1994 a 1999)
- Mãe, eu não quero ir no baile de carnaval! (cara de cão-sem-dono)
- Tá bom, filha! A gente fica aqui em casa assistindo Domingo Legal. (sorrindo)
(Baile de carnaval 2007)
- Mãe! A Bele, a Ju, a Cris, a Lê, a Lu, o Digo, o Ju e a Má vão dormir aqui em casa, tudo bem?
- Tudo bem! Tem umas cervejas na geladeira! Antes sair eu maquio vocês!
Lolita tinha medo (sempre muito medo)! O medo era dor! A dor corroía, destruía! Ela ria... ria... E chorou! Lolita era estranha (seu nariz parecia paçoca de botequim, cilíndrico). E Lolita nunca sabia se preferia o azul ao vermelho! Ela sempre preferiu tudo! Sempre foi exacerbadamente tolerante e sempre quis abraçar o mundo!
Um dia Lolita foi a uma roda de samba. E se jogou! Dançava como nunca! Suas pernas e quadril pareciam ter vida própria! Ela não sentia vergonha ou medo da rejeição! É que, na verdade, Lolita não sabia sambar!Nunca aprendera! Mas, naquele dia, sambara para si mesma! Pra satisfazer SUA sede (de samba)! E ela foi feliz! O moço do cavaquinho sorriu! Lolita gargalhou sem a menor discrição! Naquele dia, ela vestia vermelho! Mas no dia seguinte, já se rendia ao azul!
Lolita era realmente estranha! Ela gostava de bolo de chocolate com salame (além de ter nariz de paçoca de botequim)! Ela era simplória, mas muito exigente consigo e com as escolhas que nunca conseguia fazer!
A propósito, meu pai tinha bigode também! Não tão robusto quanto o do Belchior, mas certamente mais querido que o dele! Andei pensando, entre uma coçada e outra no meu queixo, que muitos bigodudos me agradam além do Belchior e do meu saudoso pai! Bigodes pra todos os gostos e estilos! A prova de que, mais que meros condomínios de ácaros, o aglomerado de pêlos ajudou a construir a imagem de muitos ícones:
Ainda na linha “discreto, mas intenso”, outro bigode pelo qual tenho muita estima e carinho é o do meu deus literário: Fernando Pessoa. Esse bigode tem o poder de me embargar a fala. Tudo vale a pena se o bigode não é pequeno! O dele é tamanho médio, mas a alma é extra-grande!
Não vale dar risada de mim agora. Mas, além do Chaplin, outro bigode também marcou minha infância! (Por algum motivo estou envergonhada de contar isso. Mas vamos lá!) Quem aí se lembra de Luis Fernando de La Vega? Sim! O marido da Maria do Bairro! O ator Fernando Colunga também visitou meu universo simbólico quando exibia um imponente bigodão na segunda fase da novela que é a “menina-dos-olhos” de Senor Abravanel. Algumas vezes eu sentia asco de ver o bigodão espinhento de Colunga roçando na cute delicada da Thalia. “Coitada!”, pensava.
Além desses, tenho meu bigode-ídolo nacional também. Um bigode-camaleão. Às vezes aparece, às vezes não! De vez em quando com formas e tamanhos diferentes! De uma maneira ou de outra, ele sempre vem acompanhado de um barulho bom! (“Uma voz sublime, uma palavra sublime, um discurso subliminar”). Muito bom! Por esse eu tenho um carinho especial, confesso. Humberto Gessinger é concorrência desleal! Seu bigode se destaca pela versatilidade! A cada disco, há um bigode diferente latente! E o galego se supera sempre!